Foco ambiental
Anavilhanas e a comunhão no rio-mar
Publicado em 16.11.2010, às 09h22
Por Ricardo Braga
Arquiélago reúne 400 ilhas
Foto: Rodrigo Braga/Especial para o Foco ambiental
É assim o arquipélago das Anavilhanas. Quatrocentas ilhas deixam fluir, sem objeção, o rio Negro, que, por vezes, as cobre com suas águas mornas, sem pressa e delicadas, como um bom amante o faz.
Descobri este maior arquipélago fluvial do mundo há trinta anos, quando cheguei para fazer o mestrado de Ecologia em Manaus. O batismo amazônico dos recém-chegados, cada qual de uma parte do Brasil, foi acampar em uma das suas ilhas anfíbias durante o carnaval.
Enquanto subíamos o rio até lá, as margens distantes evidenciavam a pequenez do nosso barco naquele mundo de água. Ao nos aproximarmos, porém, a luz do dia expunha as praias de areia branca e o emaranhado da floresta. Já ao por do sol, a sombra das copas emergentes e a silhueta dos açaizeiros iam dando o contraste perfeito para o registro na minha memória fotográfica.
Foram cinco noites dormindo em redes envoltas em cortinado, no meio da mata, em que por vezes acordávamos de madrugada, atônitos, mas maravilhados com o alarido dos macacos guariba, em bando. De dia, fazíamos incursões em trilhas para conhecer a floresta de igapó e em igarapés para experimentar a pesca com rede e conhecer a variedade de peixes.
Agora volto às Anavilhanas e me reencontro com as vogais, hoje Parque Nacional. Mergulho na água-chá, aquecida pelos raios de calor apreendidos do sol, escurecida pelas substâncias úmicas filtradas da floresta e transparente por quase não transportar sedimentos. Converso com as pessoas e tenho notícia da preservação de tracajás, peixes-boi e botos cor de rosa, antes perseguidos e dizimados.
De repente, sob aviso prévio de trovões e fortes ventos, sinto na pele a chegada da chuva torrencial, amazônica, estabelecendo conexão instantânea entre o céu e o rio-mar, sem intermediários. Os pingos graúdos e rápidos lembram balas certeiras atingindo a superfície da água, simulando um ataque.
De perto, porém, assistindo ao espetáculo mergulhado no rio, vejo que os pingos da chuva mais parecem crianças saltando na água, com a avidez de quem volta para casa. Os círculos concêntricos que se formam, frenéticos, propagam a alegria em ondas sequenciais, me contagiando, envolto por eles.
Contágio de corpo e espírito, que ainda perdura, enquanto compartilho este sentimento.


