16 de maio de 2011

Anavilhanas e a comunhão no rio-mar

18:11:44

Foco ambiental

Anavilhanas e a comunhão no rio-mar

Publicado em 16.11.2010, às 09h22

Por Ricardo Braga
Arquiélago reúne 400 ilhas
Arquiélago reúne 400 ilhas
Foto: Rodrigo Braga/Especial para o Foco ambiental
Anavilhanas... fiquei encantado ao ouvir este nome pela primeira vez. Raras são as palavras de quatro As, com consoantes amigáveis fluindo por entre as vogais, conectando o som aberto sem interferir na harmonia.

É assim o arquipélago das Anavilhanas. Quatrocentas ilhas deixam fluir, sem objeção, o rio Negro, que, por vezes, as cobre com suas águas mornas, sem pressa e delicadas, como um bom amante o faz.

Descobri este maior arquipélago fluvial do mundo há trinta anos, quando cheguei para fazer o mestrado de Ecologia em Manaus. O batismo amazônico dos recém-chegados, cada qual de uma parte do Brasil, foi acampar em uma das suas ilhas anfíbias durante o carnaval.

Enquanto subíamos o rio até lá, as margens distantes evidenciavam a pequenez do nosso barco naquele mundo de água. Ao nos aproximarmos, porém, a luz do dia expunha as praias de areia branca e o emaranhado da floresta. Já ao por do sol, a sombra das copas emergentes e a silhueta dos açaizeiros iam dando o contraste perfeito para o registro na minha memória fotográfica.

Foram cinco noites dormindo em redes envoltas em cortinado, no meio da mata, em que por vezes acordávamos de madrugada, atônitos, mas maravilhados com o alarido dos macacos guariba, em bando. De dia, fazíamos incursões em trilhas para conhecer a floresta de igapó e em igarapés para experimentar a pesca com rede e conhecer a variedade de peixes.

Agora volto às Anavilhanas e me reencontro com as vogais, hoje Parque Nacional. Mergulho na água-chá, aquecida pelos raios de calor apreendidos do sol, escurecida pelas substâncias úmicas filtradas da floresta e transparente por quase não transportar sedimentos. Converso com as pessoas e tenho notícia da preservação de tracajás, peixes-boi e botos cor de rosa, antes perseguidos e dizimados.

De repente, sob aviso prévio de trovões e fortes ventos, sinto na pele a chegada da chuva torrencial, amazônica, estabelecendo conexão instantânea entre o céu e o rio-mar, sem intermediários. Os pingos graúdos e rápidos lembram balas certeiras atingindo a superfície da água, simulando um ataque.

De perto, porém, assistindo ao espetáculo mergulhado no rio, vejo que os pingos da chuva mais parecem crianças saltando na água, com a avidez de quem volta para casa. Os círculos concêntricos que se formam, frenéticos, propagam a alegria em ondas sequenciais, me contagiando, envolto por eles.

Contágio de corpo e espírito, que ainda perdura, enquanto compartilho este sentimento.

O papel das florestas na vazão dos rios

icardo Braga
A relação floresta/infiltração reduz as enxurradas nos períodos chuvosos
A relação floresta/infiltração reduz as enxurradas nos períodos chuvosos
Geralmente, no período chuvoso, as pessoas ficam temerosas com inundações provocadas pela grande vazão dos rios. Já durante a estiagem, a preocupação é com a escassez de água, que reduz a disponibilidade de captação para abastecimento doméstico, industrial e irrigação. Nessas ocasiões costuma-se lembrar da importância das florestas e dos riscos gerados pelo desmatamento.

Embora a principal responsável pela presença ou ausência de água nos rios seja a própria chuva, pela sua precipitação ou não, as florestas desempenham importante papel no regime de vazão, tanto nos pequenos riachos, quanto nos grandes rios.

Isto se deve a vários fatores, mas, principalmente, a dois: infiltração e escoamento superficial da água. A formação arbórea recebe a água das chuvas e facilita a sua infiltração no solo, que a armazena no lençol freático, para depois liberá-la lentamente nas nascentes e margens dos cursos de água. Sem a floresta, a água cai direto no solo e escoa pela superfície, em enxurrada, arrastando terra e provocando enchentes.

Esta é a regra, embora não possa se aplicar inteiramente em eventos climáticos extremos, como de chuvas intensas por vários dias ou secas prolongadas.

Assim, a relação floresta/infiltração reduz as enxurradas nos períodos chuvosos e possibilita disponibilidade hídrica durante as estiagens. Já a relação desmatamento/escoamento superficial provoca, respectivamente, picos de cheias e falta de água. Em outras palavras, a floresta é uma regularizadora do regime de vazões, amortecendo os picos para cima e para baixo, e em conseqüência, reduzindo os riscos de inundação e de escassez de água.

Um estudo hidrológico realizado de junho a outubro de 2010, na bacia hidrográfica do rio Natuba, afluente do rio Tapacurá, comparou a vazão de três riachos (convertida em vazão específica, correspondente a litros/segundo/Km2) sob o mesmo regime de chuvas, cujas microbacias de drenagem apresentam distintos usos de solo.

Durante as chuvas, a vazão do riacho que possui a sua área de drenagem usada integralmente para agricultura de ciclo curto e pasto, foi até sete vezes superior a do riacho cuja microbacia é coberta por floresta nativa. Intermediariamente se comportou a microbacia de uso misto, com capoeiras em regeneração e agricultura.

Por outro lado, quando da suspensão das chuvas, a vazão do riacho com cobertura florestal manteve-se sempre superior à do riacho com agricultura, atenuando assim os picos de baixa vazão.

Isto significa que a floresta e o seu solo funcionaram como uma esponja, retendo a água durante os picos de precipitação, para liberá-la em seguida, cumprindo um importante papel de regularização de vazões.

O trabalho de pesquisa, orientado por mim, foi desenvolvido por Felipe Alcântara para a conclusão do Mestrado em Engenharia Civil, na área de Tecnologia Ambiental e Recursos Hídricos da UFPE.

Esta reflexão é particularmente oportuna quando se têm em pauta as alterações no Código Florestal, sendo importante garantir as áreas de recarga de aqüíferos e de proteção das margens de cursos de água e nascentes, com a presença de formações florestais.

Ibama chama agentes do Brasil todo para a Amazônia


Crédito: Ilustrativa   
''Temos de estancar a hemorragia em Mato Grosso”, diz o presidente do Ibama

O governo acredita que o pulo nos índices de desmate é resultado da perspectiva de afrouxamento da legislação com o novo Código Florestal.

A determinação do Ibama foi baixada na segunda-feira, num memorando às superintendências de todo o país.

O documento, obtido pela Folha, determina que todas as operações de fiscalização do PNAPA (o plano anual de operação do Ibama) que não tenham relação com o combate ao desmatamento na Amazônia sejam suspensas. Para 2011, o programa tinha 1.300 operações previstas.

“Não adianta combater o tráfico de animais, por exemplo, se o habitat deles foi para o saco”, diz o presidente do Ibama, Curt Trennepohl. “Foi a decisão mais lógica. Temos de estancar a hemorragia em Mato Grosso.”

Agentes dos Estados também estão sendo deslocados em massa para a Amazônia. Segundo Trennepohl, há cerca de 520 homens na região agora. O número deve crescer, já que só do Rio Grande do Sul, nesta semana, serão deslocados mais 60 agentes.

O governo foi surpreendido pela retomada da devastação, principalmente em Mato Grosso. Dados preliminares do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a serem divulgados na semana que vem, sugerem um repique sem precedentes desde o final de 2007, quando o governo baixou o embargo de crédito aos desmatadores (gênese da polêmica atual sobre o Código Florestal).

Pulo do gato – O diretor do Inpe, Gilberto Câmara, recusou-se a fornecer o dado, alegando que ele ainda está sob verificação. “O gato subiu no telhado. Falta ver o tamanho do pulo”.

A expectativa em relação à mudança no código, em discussão no plenário da Câmara, é considerada pela área ambiental do governo um dos principais fatores por trás da aceleração da derrubada.

Como já é tradição na Amazônia, o setor produtivo se antecipa a decisões do poder público e derruba a floresta.

Neste ano, em MT, o objetivo do desmatamento seria criar “áreas consolidadas” antes da aprovação do código para ganhar anistia.

Parlamentares ruralistas e entidades do setor têm vendido à base que o novo código permitiria a manutenção de áreas rurais consolidadas e abriria a possibilidade de consolidar o uso de áreas de preservação permanente.

A retomada do preço das commodities no mercado internacional e a anistia ao desmatamento concedida pela recém-aprovada lei de zoneamento do Estado também são apontadas como causas possíveis do repique.

Segundo Trennepohl, a devastação tem se concentrado na região produtora de grãos do Estado, e o desmate é sobretudo para agricultura.

Aumento do desmatamento ilegal preucupa setor de base florestal



O último Boletim Transparência Florestal do Imazon, divulgado no mês de abril, apresentou informações sobre o desmatamento e degradação a partir do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), mostrando que em março deste ano, o desmatamento na Amazônia Legal chegou a 46 quilômetros quadrados. Infelizmente, Mato Grosso aparece como líder no ranking do desmatamento, com 28% do total desmatado de agosto de 2010 a março de 2011. Na sequência, aparecem Rondônia e Pará com 26% e o Amazonas com 12%. No período em análise, os quatro estados aparecem como os responsáveis por 93% do desmatamento da Amazônia.

Já o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA detectou neste ano, através do acompanhamento do sistema DETER, uma mudança no padrão decrescente de áreas de desmatamento que vinha se estabelecendo nos últimos cinco anos. “O tamanho dos polígonos era menor, chegando ao máximo de 50 hectares, distribuídos em diferentes espaços dentro das áreas. O que encontramos, com a Operação Disparada, foram áreas com mais de 500 hectares já abertas com o uso do “correntão”, chegando algumas a superar 1.000 hectares de degradação ilegal. Encontramos alguns municípios com até sete mil hectares de desmatamento ilegal, com indicativo para atividade agrícola”, explicou Ramiro Hofmeister Martins-Costa, superintendente do IBAMA em Mato Grosso.

Uma das explicações para a mudança é a possibilidade de aprovação do novo Código Florestal, “percebemos que a exploração indevida foi uma ação planejada, concomitante e coincidente, pois a encontramos em várias áreas da região norte”, concluiu Ramiro Martins-Costa.A situação provocou a união de esforços dentro do órgão e cerca de 250 fiscais do IBAMA estão chegando de outros estados para intensificar as fiscalizações e organizar barreiras nas estradas. Além disto, a união se estendeu também para a Polícia Ambiental e a Secretaria de Estado de Meio Ambiente – SEMA.

“A integração entre as instituições vai otimizar os recursos disponíveis e dar uma resposta mais rápida. A prioridade é fazer a responsabilização administrativa e criminal dos danos ambientais que estão ocorrendo agora. De forma equivocada, aqueles que estão causando o dano, estão acreditando numa regularização que porventura possa vir beneficiá-los”, frisou Júlio Bachega, secretário adjunto de Mudanças Climáticas da SEMA.

O Centro das Indústrias Produtoras e Exportadoras de Madeira do Estado de Mato Grosso – CIPEM, representante do setor de base florestal, vem trabalhando arduamente pela transparência, legalidade e profissionalização dos seus sindicalizados. Inclusive, num esforço institucional para promover o diálogo e a cooperação com a esfera pública, representada por órgãos estaduais e federais. A Floresta em Pé é uma das bandeiras do CIPEM, assim como o Desmate Ilegal Zero, uma vez que o setor de base florestal mato-grossense vive da prática do Manejo Florestal Sustentável, uma atividade legal e responsável pela renda de milhares de famílias. E, diante desta ampliação de áreas desmatadas, preocupa-se.

“Os associados ao CIPEM sabem que a floresta em pé é a garantia da perpetuação da atividade de base florestal e, o manejo florestal é a única forma de exploração planejada. Por isso mesmo, nós apoiamos toda e qualquer iniciativa que vise combater condutas ilegais, principalmente aquelas que colocam em risco a sustentabilidade do setor”, João Carlos Baldasso, presidente do CIPEM.
 

Desmatamento em Mato Grosso registra aumento de 700%



 O desmatamento em Mato Grosso aumentou mais de 700% no ano se comparado com o mesmo período do ano passado. Satélites apontam que foram desmatados cerca de 412 mil quilômetros quadrados, ante os cerca de 52 registrados no mesmo período do ano passado, conforme informações divulgadas nesta terça-feira (3) por uma alta fonte do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

 Ao ver os dados, os analistas do órgão federal se surpreenderam com a mudança no perfil do desmatamento. Há quatro anos, o desmatamento ocorria em pequenas áreas, entre 30 mil e 50 mil metros quadrados.Agora,os desmatadores decidiram radicalizar. Os desmatamentos, segundo o Ibama, estão acontecendo em grandes áreas nativas, entre 300 mil e 500 mil metros quadrados.

 Para a retirada da mata é utilizada uma velha técnica. Segundo as fiscalizações do Ibama, os desmatadores têm usado o chamado “correntão”, que consiste em arrastar grandes correntes atreladas a tratores fazendo o corte raso da mata. As fiscalizações comprovaram também que as áreas vêm sendo desmatadas para serem usadas pela agricultura.

 Neste ano, os fiscais do Ibama aplicaram mais de R$ 100 mil em multas, além de terem apreendido inúmeros tratores e gado sendo criado em áreas de preservação. A fonte do Ibama confirmou ao G1 que o órgão quer agilizar em 2011 o julgamento destes processos para doar as máquinas apreendidas ao Exército e os animais para Embrapa.



 Os números do desmatamento detectados pelo Ibama chamaram a atenção dos ambientalistas. O coordenador de politicas públicas do Instituto Centro Vida (ICV), Sérgio Guimarães, criticou a forma como o desmatamento voltou a ocorrer, utilizando os “correntões” em grandes áreas de mata nativa. Guimarães credita este aumento do desmate às discussões do Código Florestal, no Congresso Nacional, e da aprovação  do Zoneamento. Conforme os ambientalistas, os desmatadores teriam decidido se adiantar às mudanças que estão por vir.

“Acreditamos que o desmatamento tem aumentado em consequência da perspectiva de flexibilização das lei ambientais por causa do Zoneamento e Código, que tem previsto, por exemplo, anistia aos desmatadores. Agora, com a evolução do desmatamento, cabe ao Ibama e Sema [Secretaria Estadual de Meio Ambiente] tomar as medidas pensando em reduzir esta degradação”, comentou Guimarães.

Zoneamento

 O governador do Estado, Silval Barbosa, vai enviar nesta semana o Zoneamento, sancionado no mês passado, para a análise do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), que vai julgar se a lei não fere princípios jurídicos e ambientais. O promotor do Ministério Público, Domingos Sávio, confirmou que vai entrar com uma ação para anular a lei do zoneamento, por causa das incongruências encontradas.

 Entre os temas que despertam polêmica no Zoneamento mato-grossense, está o fato de que quem desmatou de forma ilegal até o dia 20 do mês de abril não precisa recompor em 80% e sim em 50% a área de reserva legal. O zoneamento também deixa os donos de imóveis com até 400 hectares livres da obrigação de fazer reflorestamento. Para os ambientalistas, o Estado errou ao flexibilizar as regras porque o código florestal ainda não foi modificado pelo governo federal.

Código Florestal

 A Câmara dos Deputados deve colocar em votação na sessão desta semana o Código Florestal brasileiro. O texto a ser votado foi elaborado pelo relator Aldo Rebelo (PC do B-SP). As principais críticas dos ambientalistas ao Código estão em relação à redução da área de preservação permanente de 30 para 15 metros de distância das margens dos rios; além do benefício aos pequenos produtores (com até quatro módulos fiscais) que podem ficar isentos de ter reserva legal.